SP-Arte | Rotas | Aldemir Martins

Em 1956 Aldemir Martins recebeu o prêmio de melhor desenhista internacional da 28ª Bienal de Veneza. Vale lembrar que, se ainda hoje a Bienal italiana é um evento de importância no circuito de arte, na década de 1950 sua relevância era muito maior. (Em 1958 Fayga Ostrower recebeu o prêmio de gravura na mesma Bienal, mas a láurea só seria novamente recebida pelo Brasil 66 anos depois, por Anna Maiolino, em 2024.)

Foi um prêmio muito justo porque Aldemir apresentou uma nova maneira de desenhar, que surpreendeu o júri. Ele dizia que seu tracejado vinha dos pontos das rendeiras, do trançado de palhas, dos chapéus e dos cestos de sua terra natal, o Ceará, mas a percepção, e a forma como ele incorporou essas referências deram a seu trabalho características próprias, tornando sua obra original e inconfundível.

Além de ter recebido os principais prêmios da arte brasileira e internacional, Aldemir Martins foi um artista múltiplo, interessado em desafios. Foi ilustrador, desenhista, gravador, pintor, figurinista, cenógrafo e ceramista. E, em todas essas diferentes áreas, foi um artista brilhante, sempre surpreendendo pela forma inovadora, ousadamente simples e sedutora que trouxe para cada um desses campos.

Aldemir Martins reinventou a arte de forma genuinamente nordestina, mostrando a beleza e a alegria de sua terra, mas também alertando sobre problemas como a seca, a fome e a pobreza. Era um homem à frente de seu tempo, alegre e determinado, com muito amor pela arte, pelo Brasil, e especialmente, por seu Ceará. Observemos que na década de 1950 ser chamado de nordestino era ofensivo, quase um estigma – que Aldemir soube reverter.

O talento de Aldemir Martins revelou-se muito cedo, e, sendo de família simples, na falta de lápis e papel, riscava seus desenhos no chão. Entre 1941 e 1945 residiu em Fortaleza, onde se integrou aos artistas da cidade. Descoberto pelo pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, foi para o Rio de Janeiro, seguindo depois para São Paulo, onde, em 1947, foi premiado na exposição “19 pintores”. Foi a primeira das muitas premiações que receberia ao longo de sua vida: da Bienal de São Paulo, Bienal de Veneza, Salão Nacional de Arte Moderna, entre outras.

Desde o início sua obra foi influenciada por sua terra, e o primeiro álbum de gravuras que publicou, em 1949, em São Paulo, tinha o título: Cenas da Seca do Nordeste. Em 1951, voltou ao Ceará produzindo, a partir dessa viagem, obras que sacudiram a crítica nacional, por sua temática e traço inovador. O artista ilustrou livros dos mais importantes escritores brasileiros como Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Jorge Amado, e, mais do que desenhos, suas imagens trouxeram vida aos personagens dos romances. Dos anos 1950 até os anos 1970 colaborou para o jornal Estado de S. Paulo, e suas ilustrações integram hoje o acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Na década de 1960 Aldemir passou a incorporar a cor em sua obra, e o fez de forma vibrante, luminosa e solar. Seu vermelho é festivo como as festas de São João, o verde e amarelo evocam a Bandeira nacional, o azul tem o tom cambiante do céu tropical, seus tons de rosa são brilhantes e estridentes.

O conjunto que propomos apresentar em Rotas Brasileiras reunirá cerca de 15 excepcionais desenhos do artista, revelando ao público porque Aldemir recebeu o prêmio de melhor desenhista internacional na XXVIII Bienal de Veneza. Neles é possível ver o traço ágil, nervoso, detalhista do exímio desenhista, que sabia trazer a aridez do sertão de forma poética, as aves, flores, e seres do mar, calcados em referências reais, mas plenos de modernidade.

Nas palavras de Jacob Klintowitz: “Por Aldemir soubemos de nossas aves e peixes, dos nossos bichos do mato e da caatinga, e dos homens que habitaram por aqui e, já nossos símbolos, rendeira ou cangaceiro, não podemos distinguir o que é dele, o artista, o que é nosso, o seu povo. Mas talvez não exista esta distinção. É um prodígio de experiência coletiva quando a criação de um artista organiza as matrizes da percepção de seu povo. Aldemir Martins é o moderno artista viajante que registrou e deu fisionomia ao Brasil contemporâneo(…)”.

Um artista cuja obra tem o cheiro, o sabor e a cor do Brasil.

 

Denise Mattar

2025

Newsletter:

Você foi inscrito com sucesso! Ops! Algo deu errado, por favor, tente novamente.

Endereço: Alameda Ministro Rocha Azevedo, 1082, Jardim Paulista,  01410-002 , São Paulo

contato@galeriamayermizrahi.com.br

Whatsapp: (11) 94105-8449

Segunda a sexta: 10h–19h
Sábado: 10h–16h